Quando somos miúdos, as doenças têm um lado quase romântico e recreativo: ficar em casa, sofá, desenhos animados e, se tivermos sorte, gelado. A febre é um bilhete para um dia sem escola, dia de pijama e atenção redobrada.
Há uma idade (e digo isto com base em estudos altamente científicos feitos à base da minha experiência empírica) em que as doenças deixam de ser uma desculpa para faltar (espero) e passam a ser tema de conversa. Diria que é ali por volta dos 30, em que a coisa começa de forma discreta, quase como quem testa o terreno a falar de uma dor de costas que abre a caixa de Pandora.
Em menos de nada, um jantar entre amigos rapidamente se transforma num simpósio médico informal. Cada um com a sua história, o seu sintoma, o seu diagnóstico pendente e um amigo que também já teve isso. Há quem venha já munido de exames no telemóvel, não vá alguém duvidar da gravidade da situação. O curioso é que deixamos de ouvir o outro. Aquela dor alheia serve apenas de trampolim para puxarmos a nossa:
“Nem digas nada, o meu ombro parece que vai cair.”
“Isso não é nada, eu nem consigo sentar-me direito.”
“E eu? Ninguém me sabe dizer o que isto é” – cai sempre bem dar aquele toque de exclusividade.
As doenças tornaram-se uma espécie de programa de pontos de validação social. Quem sofre mais, ganha. É todo um status. Contra mim falo, que já participei e, modéstia à parte, já ganhei algumas dessas rodadas. Ando a dizer que estou velha provavelmente desde os 20 anos, comecei cedo.
A coisa tende a piorar com a idade. A certa altura já se fala de medicamentos com a mesma naturalidade com que se discute o estado do mundo. Daí para a frente, é tópico oficial de todas as interações sociais e resposta padrão ao “como tens andado?”. Há todo um vocabulário técnico que se domina com orgulho, desde o colesterol ao potássio, passando pelas siglas dos exames e jargões médicos em inglês, de um qualquer episódio do Dr. House.
No meio de tudo isto, ninguém sofre de empatia aguda. Atiramos um “pelo menos…” como quem cola um penso rápido em cima da fratura exposta, ou o muito reputado “nunca pior”. É o equivalente emocional de oferecer chá a alguém que partiu uma perna. Conforta quem dá, não resolve nada a quem anda mal.
A verdade é que todos gostamos de um bocadinho de dramatismo clínico: dá assunto, dá validação, dá aquela sensação estranha de pertença. Estamos todos na mesma maratona de maleitas, a trocar relatos, receitas e histórias de um amigo do amigo que já teve, como quem troca figurinhas.
Estar só ali, sem diagnósticos, sem palpites, sem tentar ganhar no campeonato das maleitas? Talvez não vá lá nem com receita médica, mas um bocadinho de silêncio já é meio tratamento.
Originalmente publicado na Revista Minha.

