Durante o meu intercâmbio internacional, com vinte e dois anos e muitos sonhos, acreditava que bastava querer muito para “tudo dar certo”, uma fantasia típica da idade, antes da perceção do valor da ação. Durante a minha passagem pela Universidade Católica do Rio de Janeiro, algo que guardo com muito carinho, especialmente quando me recordo dos macaquinhos a saltar de árvore em árvore do lado de fora verdejante da janela da sala de aula, ouvi, por mero acaso, uma palestra.
Com a confiança típica de quem ainda não aprendeu a temer o ridículo, fui falar com o orador e pedi-lhe um estágio na empresa onde ele era CEO. Ele achou graça à coragem e frontalidade, trocámos contactos e foi assim que consegui o meu primeiro estágio no bonito e complexo mundo do marketing.
Na primeira reunião de briefing em que participei, estava decidida a fazer o meu melhor trabalho. Esforcei-me para anotar todos os detalhes e produzir o melhor briefing de campanha alguma vez visto – típico da megalomania de uma estagiária que ainda não sabe o suficiente para saber que não sabe.
Percebi, já na reunião de seguimento com o CEO e, claro está, tarde demais, que me tinha esquecido da informação mais básica de todas. Se a memória não me falha – que o trauma educa e marca-nos de formas estranhas – era o ponto focal do briefing: a data de inauguração da centésima loja de uma conhecida farmacêutica. Teoricamente perfeito, mas sem utilidade real.
Nesse dia comecei a aprender (que isto de dizer que aprendi fica muito bem no texto, mas a aprendizagem é uma recorrência e repetimo-nos muito ao longo do tempo): antes de correr para entregar o melhor, é preciso garantir que se está a fazer o necessário. O bom é inimigo do ótimo, e feito é melhor que perfeito. Trivialidades que ouvimos demasiadas vezes para lhes darmos o devido valor. Sempre que me sinto assoberbada e a focar-me demasiado num acessório, faço um esforço para parar e perguntar-me: o que é necessário fazer?
Essa pergunta transformou-se num princípio orientador. No growth marketing, como na vida, a obsessão pelo detalhe técnico pode facilmente afastar-nos da clareza estratégica. Implementar um projeto eficaz exige menos perfeição e mais foco – garantir que o essencial está coberto antes de polir o acessório. Criar uma base sólida para evoluir.
O que aprendi naquele briefing acompanha-me até hoje. Em marketing, como na vida, é fácil confundir movimento com progresso. É o foco no necessário – e não no excesso – que faz crescer, sustentar e evoluir.
Originalmente publicado na edição de Novembro da Revista Minha.

