Fui ao Web Summit e, antes de chegar ao “futuro”, tropecei várias vezes no presente

Fiquei na pitoresca Alcochete, decidida a dar-me descanso de conduzir e convencida, depois de alguma pesquisa, de que seria simples ir de autocarro até ao Web Summit. Havia uma paragem mesmo perto de onde fiquei, com painel digital a informar quantos minutos faltavam para o próximo autocarro. Tudo isto prometia, segundo o próprio Google Maps, deixar-me a mim e às pessoas que me acompanhavam junto ao certame. Aguardamos. Nada. Só a atualização do tempo de chegada de autocarros que nunca passaram.

Umas senhoras, em conversa de bairro, salvaram a manhã. Comentavam que os autocarros afinal não paravam ali, mas sim na rua do Centro de Saúde. Dúvidas? Todas. Certezas? Nenhuma. Quando o instinto e a coscuvilhice se unem neste quadro tecnológico-rural, só resta seguir o fluxo social. Lá fomos atrás das senhoras, como se estivéssemos a participar num ritual secreto de mobilidade urbana.

O autocarro apareceu. Não na paragem devida, claro, mas na outra, a do Centro de Saúde. Quando finalmente entrou no nosso campo de visão, veio com uma novidade digna dos anos 90: não aceitava cartão, MB Way, nada. Só dinheiro vivo. Três millennials e uma Gen Z prontíssimas para a tecnologia do futuro… excepto para a da Carris.

Sem ATM à vista e sem hipótese de pagar a viagem, ficámos ali plantadas a olhar umas para as outras, derrotadas pela logística mais básica. Acabámos por fazer aquilo que nunca falha: chamar um Uber e seguir para esse grande evento tecnológico.

Chegámos ao festival das grandes ideias, dos palcos extraordinários, das figuras mundiais, da omnipresença da IA. Falava-se como se estivéssemos todos com um pé num mundo prestes a ser transformado radicalmente, quase com um brilho messiânico nos olhos. Eu, que tinha acabado de viver uma manhã caótica e digna, arrisco dizer, de qualquer lisboeta, senti uma espécie de distopia. O desfasamento entre a Lisboa real e o Web Summit era tão grande que quase fazia do autocarro da Carris uma experiência literária.

Há uns dias, vi um comentário do Vince Gilligan sobre o quanto tudo isto da inteligência artificial pode ser um enorme saco de vapor a ser vendido com grande convicção. A minha manhã no Web Summit podia bem ser um episódio dele: anti-heroico, uma colecção de ironias perfeitas e piadas prontas a servir.

Talvez seja isso o mais fascinante neste delírio colectivo que vivemos à espera de confirmar as nossas visões. No futuro prometido, tudo parece funcionar. No presente vivido, continuo só a tentar apanhar um autocarro.

Publicado originalmente na edição de Dezembro da Revista Minha.

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